sábado, 21 de março de 2015

40 anos não são 40 dias!

40 anos – 1975/2015 – não são 40 dias!
Quarenta anos ininterruptos de arte e cultura de Roberto Massoni.

Se eu fosse colocar cada velinha deste bolo de quarenta anos, eu teria que soprar com toda delicadeza e pisar em ovos em que se construíram e des-construir cada hora, cada dia, cada mês e cada ano num revival que me levaria talvez à saudade ou mesmo à melancolia, e eu prefiro comemorar datas com mais acréscimos pensando num verso de Oswald de Andrade, A VIDA PRECISA SER ILUMINADA, e se estes meus quarenta anos me fizeram caminhar sobre pedras, sobre ondas do mar, sobre brasas de fogueiras, e ainda encontrar fôlego é só porque viver pra mim sem arte é fechar meu canal pra não enlouquecer da loucura bárbara dos hospícios, e deixar de viver a loucura bárbara dos artistas, face a face com Deus e o diabo, e aqui até caberia inserir um vídeo comigo interpretando o belíssimo poema de Zé Régio, “Cântico Negro” que já entronizei, que já existe em mim/e eu nele, e que já interpretei aqui e ali mais de cinco mil vezes. Mas tudo começou aqui na Praia Grande, certamente uma outra Praia Grande que só fica na memória de quem aqui chegou pelos anos 70, vindo pelos mais diversos motivos, mas sempre por alguma mea culpa como um desencanto, uma separação, mágoa, retomada de vida, sentimentos confusos, e na época quase sem nativos, ou então poucos caiçaras. Paulistano,
nasci em 59, e nem sonhava com arte ou cultura, minto: quando menino gostava de ir ao Circo, havia um teatro de bairro que me divertia, ainda mais porque conhecia as atrizes, eu e o João desafinamos e fomos vaiados num programa de calouros ao vivo e à cores, fora da tv, realizado num galpão, fazia teatro de fantoches e cobrava entrada para comprar minhas pipas, meus brinquedos, me vestia de príncipe e saía no terraço para que meus amigos vissem, eu cobrava também por isso, enfim, houve um berço artístico, lembro de no pré fazer a coroação da Virgem Maria, e uma peça musical curta, na qual roubei o papel de meu irmão gêmeo, mas depois houve outras buscas, outros contatos, outras amizades, até que em 1973 nos mudamos para Praia Grande, no Boqueirão, Edifício Beta, apto. 107, quando todas as ruas eram de areia e a cidade era a feinha do litoral, pichada de farofeira, com as centenas de ônibus de excursão que lotavam as praias nos domingos de sol. Só havia a Ponte Pênsil, só havia poucos moradores, e tinha dois bairros principais, o Boqueirão, e a Cidade Ocian, mas pra quem estava no centro – Praia do Boqueirão – a Praia da Cidade Ocian era algo longe e duvidoso. Só havia um Colégio Estadual e não me lembro de ter um particular, todos nós estudávamos lá, fiz da sétima série do ginásio até o terceiro ano do colegial, e tudo se reencontrou aí, os amigos se fizeram, os esportes se renovaram, e a experiência da infância tomou corpo no encontro com as artes e a cultura. Comemorar porque arte é festa dionysiaca, é de Baco, dos vinhos, das bacanais, porque o artista não tem hora, não tem hoje, nem como, nem quando, nem porquê, o artista é, e pronto: é a serviço de sua arte, ou artes. Ele gira para todos os lados, no imenso oceano navega nas tempestades e calmarias, mergulha nas linguagens, de seus tempo convexos e reconvexos, é pau pra toda obra, e quando mais triste, mais faz gargalhar a sua plateia, parodiando F. Pessoa, o artista é um fingidor/que finge não sentir dor/da dor que deveras sente: infelizmente dragado pela vaidade, ou perdido no elo que o consome, na eterna busca que o faça merecedor do seu ofício, atravessa o tempo como um cometa, cujo rabo está na luz, a cabeça nas escuridões do desconhecido, e na calda os fragmentos de que é feito.
Bem, aqui estamos em 14 de Outubro de 2015, há exatos 40 anos do dia que pisei pela primeira vez num palco, o palco do Colégio Estadual de Praia Grande – hoje E.E. Dr. Reynaldo Kuntz Busch – e estou aqui para comemorar nesta festa cultural o carinho, o incentivo, a torcida, a colaboração, os apoios financeiros, destes 40 km/por ano percorrido na velocidade do som que me chegaram de meus mestres das séries em que aqui estudei, e dos Mestres que descobri nas leituras, nos discos, nos filmes, nas exposições e no mergulho de cabeça neste mar aberto, muitas vezes perigoso, mas certamente nunca mar de meus desgostos, pois nem sempre tudo foi só brilho e felicidade, mas hoje só falo de vida louca feito o mano Cazuza, de Caetano – Norte da nossa cultura – de G. Rosa, C. Lispector, de livros às mãos cheias! Como gritaria Castro Alves... Mas sobretudo a essencialidade da arte – esta verdade pouco inteligível – do transtorno bipolar afetivo, mais comumente chamada de Bipolaridade.
Como o talento e a doença se duelam em luta de capa e espada, vou fazendo da minha lucidez verbo de arraia aos momentos de crise que varia da depressão à euforia, e por isso tomo desde a adolescência drogas lícitas para controlar o humor. Por isso cuidado! Quando me vir procure perceber se atravessei uma vez mais o Rubicon, se estou carregando de novo os toneis das Danaides, ou se estou sorridente, leve, feliz com mais dois ou três projetos novos nos bolsos e um quarto na meia, porque de meia em meia surge no céu das minhas intenções uma bela Lua Cheia, eu que sou de Virgem com ascendente em Touro, que estou com 56 anos, que estou aposentado por doença incurável (bipolaridade, já disse), que tenho 50 peças de teatro registradas na Fundação Biblioteca Nacional – FUNARTE – do Minc Ministério da Cultura, que escrevo e leio sem parar deste os meus quinze anos, só preciso disso: de que me tenham amor, porque amo cada ano destes quarenta que hoje faço, e se estais aqui, é porque do seu jeito também me ama, amor de amigo que nem se escassa nem seca nem fere: e cicatriza todos os percalços.

PRAIA GRANDE, 08 DE FEVEREIRO DE 2015.

CARLOS ROBERTO MASSONI.

Um comentário: