40 anos – 1975/2015 – não são 40 dias!
Quarenta anos ininterruptos de arte e cultura de
Roberto Massoni.
Se eu fosse colocar
cada velinha deste bolo de quarenta anos, eu teria que soprar com toda
delicadeza e pisar em ovos em que se construíram e des-construir cada hora,
cada dia, cada mês e cada ano num revival que me levaria talvez à saudade ou
mesmo à melancolia, e eu prefiro comemorar datas com mais acréscimos pensando
num verso de Oswald de Andrade, A VIDA PRECISA SER ILUMINADA, e se estes meus
quarenta anos me fizeram caminhar sobre pedras, sobre ondas do mar, sobre
brasas de fogueiras, e ainda encontrar fôlego é só porque viver pra mim sem
arte é fechar meu canal pra não enlouquecer da loucura bárbara dos hospícios, e
deixar de viver a loucura bárbara dos artistas, face a face com Deus e o diabo,
e aqui até caberia inserir um vídeo comigo interpretando o belíssimo poema de
Zé Régio, “Cântico Negro” que já entronizei, que já existe em mim/e eu nele, e
que já interpretei aqui e ali mais de cinco mil vezes. Mas tudo começou aqui na
Praia Grande, certamente uma outra Praia Grande que só fica na memória de quem
aqui chegou pelos anos 70, vindo pelos mais diversos motivos, mas sempre por
alguma mea culpa como um desencanto, uma separação, mágoa, retomada de vida,
sentimentos confusos, e na época quase sem nativos, ou então poucos caiçaras.
Paulistano,
nasci em 59, e nem sonhava com arte ou cultura, minto: quando
menino gostava de ir ao Circo, havia um teatro de bairro que me divertia, ainda
mais porque conhecia as atrizes, eu e o João desafinamos e fomos vaiados num
programa de calouros ao vivo e à cores, fora da tv, realizado num galpão, fazia
teatro de fantoches e cobrava entrada para comprar minhas pipas, meus
brinquedos, me vestia de príncipe e saía no terraço para que meus amigos
vissem, eu cobrava também por isso, enfim, houve um berço artístico, lembro de
no pré fazer a coroação da Virgem Maria, e uma peça musical curta, na qual
roubei o papel de meu irmão gêmeo, mas depois houve outras buscas, outros
contatos, outras amizades, até que em 1973 nos mudamos para Praia Grande, no
Boqueirão, Edifício Beta, apto. 107, quando todas as ruas eram de areia e a
cidade era a feinha do litoral, pichada de farofeira, com as centenas de ônibus
de excursão que lotavam as praias nos domingos de sol. Só havia a Ponte Pênsil,
só havia poucos moradores, e tinha dois bairros principais, o Boqueirão, e a
Cidade Ocian, mas pra quem estava no centro – Praia do Boqueirão – a Praia da
Cidade Ocian era algo longe e duvidoso. Só havia um Colégio Estadual e não me
lembro de ter um particular, todos nós estudávamos lá, fiz da sétima série do
ginásio até o terceiro ano do colegial, e tudo se reencontrou aí, os amigos se
fizeram, os esportes se renovaram, e a experiência da infância tomou corpo no
encontro com as artes e a cultura. Comemorar porque arte é festa dionysiaca, é
de Baco, dos vinhos, das bacanais, porque o artista não tem hora, não tem hoje,
nem como, nem quando, nem porquê, o artista é, e pronto: é a serviço de sua arte,
ou artes. Ele gira para todos os lados, no imenso oceano navega nas tempestades
e calmarias, mergulha nas linguagens, de seus tempo convexos e reconvexos, é
pau pra toda obra, e quando mais triste, mais faz gargalhar a sua plateia,
parodiando F. Pessoa, o artista é um fingidor/que finge não sentir dor/da dor
que deveras sente: infelizmente dragado pela vaidade, ou perdido no elo que o
consome, na eterna busca que o faça merecedor do seu ofício, atravessa o tempo
como um cometa, cujo rabo está na luz, a cabeça nas escuridões do desconhecido,
e na calda os fragmentos de que é feito.
Bem, aqui estamos em
14 de Outubro de 2015, há exatos 40 anos do dia que pisei pela primeira vez num
palco, o palco do Colégio Estadual de Praia Grande – hoje E.E. Dr. Reynaldo
Kuntz Busch – e estou aqui para comemorar nesta festa cultural o carinho, o
incentivo, a torcida, a colaboração, os apoios financeiros, destes 40 km/por
ano percorrido na velocidade do som que me chegaram de meus mestres das séries
em que aqui estudei, e dos Mestres que descobri nas leituras, nos discos, nos
filmes, nas exposições e no mergulho de cabeça neste mar aberto, muitas vezes
perigoso, mas certamente nunca mar de meus desgostos, pois nem sempre tudo foi
só brilho e felicidade, mas hoje só falo de vida louca feito o mano Cazuza, de
Caetano – Norte da nossa cultura – de G. Rosa, C. Lispector, de livros às mãos
cheias! Como gritaria Castro Alves... Mas sobretudo a essencialidade da arte –
esta verdade pouco inteligível – do transtorno bipolar afetivo, mais comumente
chamada de Bipolaridade.
Como o talento e a
doença se duelam em luta de capa e espada, vou fazendo da minha lucidez verbo
de arraia aos momentos de crise que varia da depressão à euforia, e por isso
tomo desde a adolescência drogas lícitas para controlar o humor. Por isso
cuidado! Quando me vir procure perceber se atravessei uma vez mais o Rubicon,
se estou carregando de novo os toneis das Danaides, ou se estou sorridente,
leve, feliz com mais dois ou três projetos novos nos bolsos e um quarto na
meia, porque de meia em meia surge no céu das minhas intenções uma bela Lua
Cheia, eu que sou de Virgem com ascendente em Touro, que estou com 56 anos, que
estou aposentado por doença incurável (bipolaridade, já disse), que tenho 50
peças de teatro registradas na Fundação Biblioteca Nacional – FUNARTE – do Minc
Ministério da Cultura, que escrevo e leio sem parar deste os meus quinze anos,
só preciso disso: de que me tenham amor, porque amo cada ano destes quarenta
que hoje faço, e se estais aqui, é porque do seu jeito também me ama, amor de
amigo que nem se escassa nem seca nem fere: e cicatriza todos os percalços.
PRAIA GRANDE, 08 DE
FEVEREIRO DE 2015.
CARLOS ROBERTO
MASSONI.
Que delícia! Adorei ler!
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